Público, 13.05.2008, Carlos Dias
Há hoje uma desilusão nas pessoas pelas promessas que receberam quando, no dia 19 de Novembro de 2002, foi inaugurada a nova Aldeia da Luz para acolher os 325 residentes evacuados do velho aglomerado que hoje está submerso pela água da grande albufeira alentejana de Alqueva. A opção de construir uma nova aldeia - iniciada em 1998 - esteve envolvida, desde o primeiro momento, por grande celeuma, e que se transformou num grande foco de conflitos entre a Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva (EDIA) e a população luzense, desentendimentos que têm continuidade nos dias de hoje, apesar dos quase 50 milhões de euros gastos na sua construção.
O primeiro-ministro de então, Durão Barroso, que ali se deslocou para
presidir à inauguração da nova Aldeia da Luz, não conseguiu esconder a
sua admiração depois de observar os equipamentos que a população
passava a usufruir: "Quem dera que todas as aldeias do nosso país
fossem como a Aldeia da Luz", comentou.
Para acolher as 325 pessoas desalojadas por imperativo da construção da
barragem, a EDIA construiu 210 habitações, 11 estabelecimentos
comerciais e 16 equipamentos colectivos. Destacam-se o edifício da
junta de freguesia, melhor e mais funcional que o de algumas câmaras
municipais; um pavilhão polivalente coberto que faz inveja a algumas
sedes de concelho; uma escola do ensino básico que não tem paralelo em
todo o Alentejo; e ainda uma colectividade, um centro de dia, um centro
de saúde, um novo cemitério, praça de touros, uma estação de tratamento
de águas residuais, uma campo de futebol, uma estação elevatória, uma nova igreja matriz, o museu da comunidade e um perímetro de rega com 600 hectares, o primeiro da era Alqueva.
Toda a nova estrutura foi pensada em moldes que procuravam realçar as
características básicas da casa alentejana. Nalgumas estruturas habitacionais e equipamentos colectivos foram integrados, pelo seu
simbolismo, materiais da velha aldeia trazidos pela população e
recolhidos das casas demolidas.
Um projecto que fora planeado para transformar a nova aldeia numa
referência made in Alqueva, onde não falta televisão por satélite,
ligações em fibra óptica e rede de gás, está a transformar-se
gradualmente numa comunidade sem vida. O presidente da junta de
freguesia, Francisco Oliveira, diz que a população continua a encarar o
local "como uma terra desconhecida", deixando expressa a sua convicção
de que "não é fácil começar tudo de novo".
Ao traçar o estado de espírito das pessoas que ainda habitam a sua
freguesia, Francisco Oliveira diz que a "[Aldeia da] Luz, hoje,
corresponde a uma aldeia com menos gente, está mais desabitada e sem
vida própria". E, ao falar de futuro, o autarca faz uma alusão
premonitória baseado em incertezas. "Os miúdos na escola primária [no
dia da inauguração eram 36] foram reduzindo e para o ano o
estabelecimento de ensino corre o risco de encerrar por não ter o
número mínimo de crianças", alerta Francisco Oliveira, quando em 2001
era uma das escolas que, no Alentejo, mais crianças tinha
proporcionalmente à sua população.
Sobre o estado actual das construções e dos equipamentos, o autarca
também não se poupa nas críticas. "Num número que vai crescendo, nas
casas estão a aparecer fissuras e noutras entra água. Os esgotos
entopem de 15 em 15 dias e somos forçados a retirar cinco mil litros de
porcaria. Há fugas de gás de duas dezenas de habitações e as ruas estão
cheias de buracos".
Referindo-se ao "grande lago" mesmo em frente da aldeia, Francisco
Oliveira diz que o espelho de água "vai-se modelando em função dos
grandes interesses". Seis anos após a sua inauguração, a nova Aldeia da
Luz perdeu gente. "Já fecharam dois cafés e uma mercearia", prossegue o
autarca, deixando uma conclusão: "Não valeu a pena".
O presidente da Câmara Municipal de Mourão, Santinha Lopes, instado a comentar a situação da Aldeia da
Luz, freguesia que faz parte do seu concelho, admite a existência dos
problemas referenciados por Francisco Oliveira, mas imputa
responsabilidades à junta de freguesia por utilizar os equipamentos -
"não os arranjam, nem os limpam", critica. As ruas com buracos e cheias
de ervas, é uma situação que diz não compreender, frisando que a "Câmara
Municipal de Mourão enviou para a Aldeia da Luz uma dúzia de pessoas"
para a manutenção dos arruamentos. Quanto aos esgotos entupidos,
Santinha Lopes considera que a situação "é idêntica ao que se passa em
Mourão, no Alentejo e em todo o país". Além do mais, refere, "a EDIA
pagou verbas a empreiteiros para reparar a rede de esgotos e também deu
dinheiro às pessoas para os arranjos nas suas habitações".
Acresce a este conjunto de dificuldades o facto de a Aldeia da Luz
"ainda não ter sido entregue ao município de Mourão", salienta o
presidente de câmara. O porta-voz da EDIA, Carlos Silva, no que
respeita às questões das deficiências estruturais nas habitações e
equipamentos colectivos, nomeadamente na rede de esgotos, diz que
"ainda tem de serdada uma resposta no quadro de responsabilidades assumidas pelo empreiteiro. E, se este não os resolver, resolve a EDIA".
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